Sunday, April 23, 2017

Borboletas na poesia!

Um dia destes
a fotógrafa partiu em busca de borboletas!

Deliciou-se com a sua singeleza ... ligeireza ... e beleza!


 AS BORBOLETAS

Brancas
Azuis
Amarelas
E pretas
Brincam
Na luz
As belas
Borboletas

Borboletas brancas
São alegres e francas.

Borboletas azuis
Gostam de muita luz.

As amarelinhas
São tão bonitinhas!

E as pretas, então
Oh, que escuridão!

Vinícius de Moraes



Crepúsculo

Teus olhos, borboletas de ouro, ardentes
Borboletas de sol, de asas magoadas,
Pousam nos meus, suaves e cansadas
Como em dois lírios roxos e dolentes…

E os lírios fecham… Meu amor não sentes?
Minha boca tem rosas desmaiadas,
E a minhas pobres mãos são maceradas
Como vagas saudades de doentes…

O silêncio abre as mãos… entorna rosas…
Andam no ar carícias vaporosas
Como pálidas sedas, arrastando…

E a tua boca rubra ao pé da minha
É na suavidade da tardinha.
Um coração ardente palpitando…

Florbela Espanca





 Passa uma Borboleta


Passa uma borboleta por diante de mim
E pela primeira vez no Universo eu reparo
Que as borboletas não têm cor nem movimento,
Assim como as flores não têm perfume nem cor.
A cor é que tem cor nas asas da borboleta,
No movimento da borboleta o movimento é que se move,
O perfume é que tem perfume no perfume da flor.
A borboleta é apenas borboleta
E a flor é apenas flor.

Alberto Caeiro





Histórias de amor são como borboletas:
você consegue ver ... pode até tocar
mas se você tentar guardar
uma pra você ela simplesmente morre."
Tem que saber admirar de longe!!!
Nuno Boggiss


Friday, April 21, 2017

Pêras ... e poesia!



 A pêra
Los Angeles
Como de cera
E por acaso
Fria no vaso
A entardecer

A pêra é um pomo
Em holocausto
À vida, como
Um seio exausto

Entre bananas
Supervenientes
E maçãs lhanas

Rubras, contentes
A pobre pêra:
Quem manda ser a?

Vinicius de Moraes…Los Angeles, 1947.


"Subiu a uma pereira
um homem por lhe ver peras,
ele peras não comeu,
também a ninguém deu peras.
Não botou peras no chão,
consigo não trouxe peras,
mas consta que na pereira
também não ficaram peras.
Pergunta-se agora a todos
como foi isto das peras?
Quem quiser dar neste enigma
decerto tem para peras.”



Tinha uma pêra sobre a mesa
Verde, arenosa e suculenta
(Como desejei!)
De tanto vê-la, senti-la pudera
Mas nunca prová-la, a certeza.
(Nunca por, pequei!)
Pêra abstrata, pura, inata
Pêra dos deuses, fruta despida
Adão, Eva, a serpente cobiçara
Dessa fruta inerte a mordida
Pêra minha delícia
De saborear-te a doce espera
De desejar-te a lascívia
Que em meu paladar desperta
Pêra minha da janela. 

(desconheço autor!)

Tuesday, April 18, 2017

Primavera ... olhares poéticos!


Quando Vier a Primavera

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Heterónimo de Fernando Pessoa




 A Tua Voz de Primavera

Manto de seda azul, o céu reflete
Quanta alegria na minha alma vai!
Tenho os meus lábios húmidos: tomai
A flor e o mel que a vida nos promete!

Sinfonia de luz meu corpo não repete
O ritmo e a cor dum mesmo desejo... olhai!
Iguala o sol que sempre às ondas cai,
Sem que a visão dos poentes se complete!

Meus pequeninos seios cor-de-rosa,
Se os roça ou prende a tua mão nervosa,
Têm a firmeza elástica dos gamos...

Para os teus beijos, sensual, flori!
E amendoeira em flor, só ofereço os ramos,
Só me exalto e sou linda para ti!

Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas"




 De Florbela Espanca

É Primavera agora, meu Amor!
O campo despe a veste de estamenha;
Não há árvore nenhuma que não tenha
O coração aberto, todo em flor!
.
Ah! Deixa-te vogar, calmo, ao sabor
Da vida... não há bem que nos não venha
Dum mal que o nosso orgulho em vão desdenha!
Não há bem que não possa ser melhor!
.
Também despi meu triste burel pardo,
E agora cheiro a rosmaninho e a nardo
E ando agora tonta, à tua espera...
.
Pus rosas cor-de-rosa em meus cabelos...
Parecem um rosal! Vem desprendê-los!
Meu Amor, meu Amor, é Primavera!...




Em cada Primavera
...há um renascer...
uma vontade enorme de recomeçar!!!

Wednesday, April 12, 2017

Cruz e poesia!

Uma Santa Páscoa!!!





Acusação à Cruz

 Ha muito, ó lenho triste e consagrado!
 Desfeita podridão, velho madeiro!
 Que tens avassalado o mundo inteiro,
 Como um pendão de luto levantado.

 Se o que foi nos teus braços cravejado
 Foi realmente a Hostia, o Verdadeiro,
 Elle está mais ferido que um guerreiro
 Para livrar das flexas do Peccado.

 Ha muito já que espalhas a tristeza,
 Que lutas contra a alegre Natureza,
 E vences ó Cruz triste! Cruz escura!

 Chega-te o inverno, symbolo tremendo!
 Queremos Vida e Acção- Fica-te sendo
 Um emblema de morte e sepultura!

António Gomes Leal, in 'Claridades do Sul'
...um poeta...e crítico literário português.

Monday, April 10, 2017

Poesia (en)rendada!!!

A palavra "rendas"... é homónima ... 
pois lê-se e escreve-se da mesma maneira
mas tem significados tão diferentes!

Estas "rendas" encantam 
quem gosta desta arte ... as "rendas de casa"...
andam na boca do povo 
... pois com a nova lei de arrendamento...
as rendas andam enrodilhadas!





E ainda consegui descobrir estas rendas:

NÃO TE RENDAS MEU POVO

Não te rendas meu povo, não te rendas
Às mãos de quem te quer voltar a ver
Cativo e desgraçado não te vendas
Aqui, nada mais temos a vender

Não te cales meu povo, que a saudade
Já não pode roer dentro de nós
Se o teu punho constrói a liberdade
Levanta ainda mais a tua voz

Não te rendas meu povo, não te rendas
Já nos querem sós e divididos
Já nos querem fracos e calados

Não te rendas meu povo, não te rendas
Não te cales meu povo, não te cales
Quando nos quiserem já vencidos
Hão-de ter-nos de pé e perfilados
Não te rendas meu povo, não te rendas

Letra: Joaquim Pessoa
Música:João Fernando

Friday, April 7, 2017

Soneto ... ao mondego!

Soneto de Camões

Doces águas e claras do Mondego,
doce repouso de minha lembrança,
onde a comprida e pérfida esperança
longo tempo após si me trouxe cego;

de vós me aparto; mas, porém, não nego
que inda a memória longa, que me alcança,
me não deixa de vós fazer mudança,
mas quanto mais me alongo, mais me achego.

Bem pudera Fortuna este instrumento
d'alma levar por terra nova e estranha,
oferecido ao mar remoto e vento;

mas alma, que de cá vos acompanha,
nas asas do ligeiro pensamento,
para vós, águas, voa, e em vós se banha.


Luís Vaz de Camões













Ao passar por Coimbra aprecie as suas margens!!!

Tuesday, April 4, 2017

Poesia ... e Coimbra!

Monumental
esta homenagem feita à cidade de Coimbra!

É de um requinte e bom gosto
perspicaz ao nosso olhar!



Num olhar atento vemos:
a mulher ... o fado ... o estudante ... a rainha santa
numa elegante silhueta
que não deixa indiferente quem
passa ... junto ao Arco de Almedina!








 Coimbra

Coimbra... Terra bela de encantos,
Imortal fado que de ti emana;
De lendas antigas... Lindos contos,
Beleza rara que não engana!

Águas calmas correm em teu leito
Que um dia esse rio viu nascer...
Corre o Mondego calmo e perfeito,
Assim sempre te deixem correr!

Tuas pontes que dão passagem
Às gentes percorrendo a vida...
De uma para a outra margem,
Há sempre uma ponte esquecida!

Do velho Choupal imortalizado
E da Lapa em seu esplendor,
Os versos que cantam teu fado...
São olhos de um grande amor!

Em soneto Camões te celebrizou
No universal canto... A tua memória!
Como ele... Ninguém mais cantou,
Épocas passadas da nossa história!

Valioso saber a gente muito ilustre...
Transmitiste das formas mais variadas;
Cidade berço de um menino mestre,
Que tão belas obras deixou desenhadas!

Coimbra... Das serenatas ao luar
Com sons de guitarras melodiosas!
Saem pelas gargantas a cantar...
As mais lindas vozes portuguesas!!

Matias José (05-05-2009)

A Alma feminina da cidade
tão serena no seu pousar!